O dia em que voltar da viagem virou uma odisseia

Uma das viagens que eu mais queria fazer no Brasil era o roteiro de cidades históricas de Minas Gerais. Em 2017, decidi tirar o plano do papel: eu e meu namorado pegamos um feriadão e fizemos 3 cidades em uma mesma viagem: São João del Rei, Tiradentes e Congonhas (por causa das esculturas  dos 12 profetas de Aleijadinho, porque a cidade, em si, não é lá muito atrativa).

A viagem ocorreu maravilhosamente bem até chegarmos ao último destino. Primeiro que chegar até a Igreja dos Matosinhos, onde ficam as estátuas dos 12 profetas, não é tarefa muito fácil pra quem não está de carro: descemos na rodoviária de Congonhas vindos de São João del Rei, andamos um bom pedaço achando que dava pra chegar à igreja a pé, desistimos, pegamos um ônibus e só chegamos quase no pôr do sol (o que rendeu belas fotos, aliás). Voltaríamos a São Paulo de Congonhas mesmo, então não podíamos perder muito tempo, pois tínhamos hora pra voltar para não perder o ônibus.

 

Muitas voltas e fotos depois, estava na hora de voltar. Perguntamos onde ficava o ponto para pegarmos o ônibus que nos levaria de volta à rodoviária; fomos ao local indicado e esperamos. Esperamos. Esperamos. E a hora passando. E nada de ônibus. Até que uma moça nos viu lá e disse que os ônibus não estavam passando por conta de um festival da cerveja que estava tendo lá e nos indicou outro lugar pra pegar o ônibus (só pra adiantar, não tinha uber nem táxi nas proximidades).

Muito que bem. Fomos ao outro ponto e um senhor viu que estávamos claramente perdidos e, meio confuso, mas com boas intenções, disse que o melhor mesmo era pegar um táxi. Mas aquele não era, definitivamente, um lugar em que havia pontos de táxi. Então o senhor confuso com boas intenções nos levou até um mercadinho e disse para a moça do caixa que ligasse para um homem que fazia esse tipo de serviço na informalidade mesmo.

Resumindo: a moça super nos ajudou, ligou para o “taxista” que chegou lá em alguns minutos e nos levou para a rodoviária por módicos 20 reais. Fim da história? Nananinanão.

Abre parênteses: quando se compra passagem de ônibus online, a gente imprime um voucher e a troca pela passagem propriamente dita é feita no guichê da empresa de ônibus na rodoviária mesmo. Fizemos isso em várias rodoviárias por aí e achamos que em Congonhas seria a mesma coisa. Fecha parênteses. 

Bom, chegamos à rodoviária ainda com bastante tempo (dica: nunca, jamais fique turistando até o último minuto se você tiver passagem de ônibus / avião / trem marcada, porque nunca se sabe os perrengues que nos esperam). E começamos a procurar na maior inocência o guichê da empresa de ônibus para trocar os vouchers pelas passagens. A questão é que simplesmente não existia esse guichê e, quando começamos a perguntar para as pessoas dali por onde chegava o ônibus que iria para São Paulo, a resposta foi categórica: não havia ônibus que saía de Congonhas e ia para São Paulo. Supostamente nós precisaríamos ir até Conselheiro Lafaiete e de lá pegar um ônibus para São Paulo. Desesperada, eu cheguei a botar um pé no degrau do ônibus para Conselheiro Lafaiete, que estava saindo naquele instante, mas o bom senso e meu namorado me fizeram desistir da ideia. (dica 2: não tome decisões no desespero, isso pode piorar muito as coisas)

Um pouco mais calma, resolvi ligar para a central de atendimento da empresa do ônibus para tirar satisfação, pois eu me recusava a acreditar que tinha comprado uma passagem cujo trajeto não existia. Depois de longos minutos no telefone com um moço bem intencionado, mas mal informado, recebi um super e útil conselho: perguntar para os motoristas de ônibus que paravam ali se existia esse tal de ônibus que fazia o trajeto Congonhas – SP (!!!). Entrei no primeiro ônibus que vi e fiz a pergunta a queima roupa  para a cobradora: “Moça, você sabe se daqui sai ônibus para São Paulo?”. Ela disse que sim, mas que provavelmente estava atrasado.

Aliviados, esperamos mais uma meia hora, com muito frio, o tal do ônibus. Ainda passava coisas pela minha cabeça do tipo “e se esse ônibus não vier?”, “se eu precisar dormir nessa rodoviária vou morrer de frio”, “será que tem hotel por aqui?”. E eis que chega um ônibus que não era da empresa, mas que ia para São Paulo. Meu namorado estava descrente e achou melhor esperar por outro ônibus, o da empresa mesmo, mas eu estava determinada a sair daquela cidade imediatamente.

Fui falar com o motorista decidida a entrar naquele ônibus de qualquer jeito, com o pé na escada e tudo. Expliquei que só tínhamos os vouchers porque ali naquela rodoviária não havia guichê da empresa para fazer a troca pelas passagens e que eu tinha falado com a central de atendimento que disse que eu podia embarcar só com aquele papel mesmo (era mentira, mas soou convincente). O motorista ficou desconfiado, meio confuso, mas aceitou os papeis e fez uma passagem improvisada na hora. 9 horas depois, estávamos sãos e salvos em casa.

Pois bem. Até hoje eu não entendi algumas coisas:

1 – como é possível que as pessoas da cidade não soubessem que dali saía ônibus para São Paulo? Tipo, é SÃO PAULO. E não uma cidade perdida por aí.

2 – como é possível que a Central de Atendimento da empresa que faz o trajeto também não soubesse disso?

3 – Onde as pessoas que estavam na rodoviária e também pegariam o ônibus para SP trocaram seus vouchers?

Mistérios & perrengues, a gente se vê por aqui.

O dia em que eu achei que ia ficar presa na fronteira Bolívia-Chile

A viagem pela Bolívia, Chile e Peru, como um bom mochilão, rendeu muitas boas lembranças e muitos perrengues. Esse que vou relatar foi um dos poucos que me levou às lágrimas. Porém, foi um dos perrengues que me mostrou que sempre há pessoas dispostas a ajudar uma menina com cara de desespero.

Pois bem: estava eu no terceiro dia de passeios por Uyuni e redondezas, na Bolívia. O combinado foi que o motorista do 4X4 que havia sido o guia/motorista/cozinheiro de todos aqueles dias me deixaria na fronteira para cruzar para o Chile, pois eu havia pago a mais logo no primeiro dia para que um ônibus me levasse da Bolívia até o posto de checagem de passaporte no Atacama. Detalhe: eu era a única no grupo de viajantes daquele grupo que iria para o Chile; o restante voltaria à La Paz.

Desci do veículo, me despedi do pessoal, tiramos uma foto, muito bom ter te conhecido,  vamos criar um grupo no whatsapp, blablabla. Passei pelo posto de checagem ainda na Bolívia (uma salinha literalmente no meio do nada), peguei o carimbo de saída e perguntei onde estava o ônibus que iria para o Atacama.

Fui orientada a entrar em um ônibus que estava ali parado e, com a maior educação do mundo (sqn), o motorista me pergunta onde estava minha passagem. Eu disse que o motorista do veículo onde estava só havia me dado um papel amarelo, o que, obviamente, não era a tal da passagem. Depois de alguns minutos tentando argumentar, o motorista dispara que eu não poderia entrar no ônibus porque não tinha passagem e ponto final. Como o outro motorista já tinha ido embora, fiquei sem saber o que fazer.

Naquele momento, senti várias coisas ao mesmo tempo: medo de ficar ali na fronteira sei lá por quanto tempo, frustrada com a possibilidade de estragar minha viagem super mega planejada dia a dia (sim, sou virginiana), com raiva do motorista que não tinha me dado aquela bendita passagem sendo que eu tinha pago por ela, raiva do motorista do ônibus que não queria acreditar nem entender aquela pobre menina viajando sozinha, raiva de mim por ter sido tão burra e não ter me atentado que precisava de uma passagem… Enfim.

Saí do ônibus já quase chorando, andando para lá e para cá sem rumo e sem saber o que fazer. Até que uma mulher me para e pergunta o que aconteceu. Em meio as lágrimas, tento explicar num portunhol safado o ocorrido e, enquanto isso, uma outra moça se aproxima e me pergunta se preciso de ajuda. As duas propõem fazer uma vaquinha com outras pessoas para pagar minha passagem, começam a revirar os bolsos, conversar com outras pessoas de outro ônibus.

De repente, num assomo de racionalidade, lembro dos 50 bolivianos que havia guardado just in case na carteira, e que era a quantia exata para pagar minha passagem (de novo). Agradeci muito as moças, entrei em outro ônibus e perguntei se estava indo para o Atacama. O motorista disse que sim; então paguei minha passagem e em 30 minutos cheguei linda e plena em terras chilenas.

Eu não me canso de falar que toda viagem tem seus perrengues e que é preciso ter muita calma para não se desesperar. Porém, estar sozinha no deserto (sozinha = sem alguém que eu conhecesse) e me sentindo enganada foi uma sensação que me tirou do chão. Mas o fato é que aquelas mulheres se ofereceram para me ajudar assim, genuinamente, dispostas a pedir ajuda para outras pessoas por mim. Parece bobo, mas eu nunca vou me esquecer disso, de como em um momento de desespero pessoas que eu não conhecia quiseram me ajudar. O mundo é bão, Sebastião. O mundo é bão. É só a gente se jogar (com certo planejamento, claro) que as coisas dão certo. Mesmo no que parece ser o maior dos perrengues da vida.

O dia em que um piriri me acompanhou por dois países

Antes de fazer meu mochilão pela América do Sul, passando por Bolívia, Chile e Peru, eu pesquisei muito, muito mesmo. Principalmente em relação à Bolívia, pois os relatos de visita ao país envolviam desde agências de viagem safadas até dificuldade em beber água potável.

Pois bem, o fato é que passei ilesa boa parte da minha viagem pelo país. Comi bem, passeei bastante e paguei pouco. A coisa começou a degringolar quando passei os 3 dias fazendo passeios em Uyuni e região. Pagando um valor consideravelmente baixo, passei 3 dias em um 4×4 visitando locais maravilhosos, com todas as refeições inclusas e hospedagem também. A comida não tinha nada de mais: preparada pelo próprio motorista da agência, se resumia a arroz, frango, macarrão… enfim, comida normal.

Não sei se foi a altitude, o tompero ou sei lá o que, mas a partir do segundo dia ele veio com toda sua força: o temido piriri. Pior: os passeios duravam o dia todo, não havia banheiros espalhados por aquela imensidão do deserto. Então a cada refeição eu rezava para que meu estômago aguentasse até o final da tarde, quando estaríamos em um local com banheiro.

O piriri me acompanhou até o Atacama, no Chile, que era minha próxima parada. Cheguei no país na hora do almoço, entrei em um restaurante e fiquei olhando desesperada para o cardápio, pensando em qual daquelas comidas não me faria correr para o banheiro. A escolha foi por uma sopa e uma coca que custaram absurdos 35 reais. Mas ainda assim meu estômago não aceitou.

Passei o dia seguinte tensa, sem querer comer. Já tinha tomado o remedinho que tinha levado na minha farmácia de mão, mas ele adiantou vários nadas. Desesperada e pensando ainda no restante da viagem e quanto tempo aquele piriri iria me acompanhar, entrei em uma farmácia com a cara e a coragem e com um portunhol vergonhoso pedi para a balconista, na lata: tienes remedio para diarreia?

Aquela anja rapidamente entendeu a situação e me deu um remédio X. Eu nem li a bula e tomei com a maior fé (não que eu recomende isso, mas era isso ou continuar passando mal). Dito e feito: o piriri passou na hora e eu não precisei mais ficar preocupada em comer perto de um banheiro.

Lição da viagem: nem sempre os remédios que vc leva vão funcionar, mas nada que uma cara de pau e uma farmácia não resolvam.

O dia em que uma lata de brigadeiro causou no aeroporto de Amsterdam

Em 2015 participei de um projeto na República Tcheca. Como não há voos diretos ligando o Brasil à capital da cerveja, tive que pegar um voo com escala em Amsterdam. A má notícia: a escala era de 8 (!) horas. A boa notícia: a escala era de 8 horas. Ou seja: peguei do limão e fiz minha limonada. Já que tinha longas 8 horas de espera, aproveitei para dar uns roles no centro da cidade.

Rolê feito, hora de voltar para o aeroporto e passar a mochila de mão no raio x novamente (sim, esse é o procedimento padrão). Passei minha mochila abarrotada, passei pela segurança e, de repente, o moço pede para uma outra moça me revistar. Isso nunca tinha acontecido antes na minha vida mas, pensei: ok, é só um procedimento padrão. Mas a coisa não parou por aí.

O moço (sempre muito simpático, btw), perguntou o que é que tinha na minha mochila. Perguntei se tinha algo errado e ele respondeu um “veremos”. Comecei a listar tudo que vinha à minha cabeça em um inglês nervoso: shampoo, condicionador, sabonete, escova de dentes, kindle, touca, luva, caderno e mais um monte de cacarecos. O moço esperava pacientemente enquanto me perguntava de onde eu era, para onde eu ia, o que ia fazer na República Tcheca, o que fiz no meu rolê de algumas horas em Amsterdam etc etc etc. Perguntou se minha mochila tinha ficado comigo o tempo todo, se alguém tinha se aproximado dela e eu dizendo que não mas, ao mesmo tempo, passando um filme pela minha cabeça e imaginando se, em algum milésimo de segundo, alguém teria colocado alguma coisa na minha mochila.

Como eu não havia mencionado o tal do objeto suspeito (muito difícil pensar sob pressão nas milhares de coisas que vc enfiou na mochila!), o moço, educadamente, perguntou se podia abrir minha mochila e tirar as coisas dela (e eu tinha opção, por acaso?) Bom, ele tirou um mundaréu de coisas até que achou o tal do suspeito: uma lata de brigadeiro. Explico: o projeto do qual ia participar era para dar aulas sobre a cultura e história do Brasil em escolas da República Tcheca, então era bom levar comidas “típicas” do meu país.

Quando vi que a inocente lata de brigadeiro era a causadora da história, fiquei mega aliviada. Mas ainda tive que explicar para que servia aquilo, mas o moço não entendia (ele achava que era tipo uma geleia pra passar na torrada, o que não é uma má ideia). Eu, aliviada pero nervosa, não conseguia explicar, falava que se fazia “small balls” com aquilo e que era de comer. Até que o moço chamou outro moço para explicar o que raios era aquilo: o outro moço falou alguma coisa ininteligível e fez cara de “deixa a menina em paz, isso daí é de comer”.

Passado o perrengue, hora de enfiar tudo de volta na mochila, arrumar um lugar para sentar e ligar para meus pais contando o que aconteceu para, então, começar a rir da situação.

O que me deixou intrigada é: na mala despachada tinha uma rapadura e ninguém falou nada. Vai entender…

O dia em que eu chorei em um cinema de Londres

Os 30 dias que eu passei em Londres estudando inglês também serviram para que eu conhecesse diversos lugares e tivesse muitas experiências. Porém, os meses em que passei planejando minuciosamente cada detalhe da viagem não foram suficientes para me preparar para um sentimento que, até então, eu desconhecia: a solidão.

Estranho pensar que em uma das maiores metrópoles do mundo eu conseguisse me sentir tão… só. Lembro que, alguns dias após a empolgação de me dar conta de que, sim, eu estava na terra da rainha, eu me senti só, terrivelmente só. Os colegas do curso de inglês – incluindo brasileiros -, minha hostfamily e o tanto de gente pra lá e pra cá não foram suficiente para que eu me sentisse inteiramente acolhida.

Foi na ida ao cinema para assistir Lincoln (até cinema londrino tinha entrado na minha lista de coisas a fazer) que eu desabei. Acho que foi ali que eu me dei conta de como estava me sentindo sozinha, de como queria ter alguém perto de mim para compartilhar as coisas maravilhosas que eu estava vivendo. Foi aí que eu percebi que durante toda a minha vida eu estive sempre rodeada de família, amigos e meu namorado, mas naquele momento, nenhum deles estava por perto e as facilidades tecnológicas que me permitiam conversar com eles todos os dias não eram suficientes para preencher esse vazio estranho que eu sentia.

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Vamos combinar que esse tempo não colaborava para me animar, né?

Acho que chorar no cinema na cidade dos meus sonhos por me sentir sozinha foi um momento muito importante. Depois disso eu aprendi a curtir tanto minha própria companhia que viajar e fazer coisas sozinha passou a ser um verdadeiro prazer. Embora eu preze muito pelas experiências com amigos, família e namorado, ter algumas horas sozinha em casa tendo por companhia uma caixinha de comida chinesa , comprar roupas e viajar por aí sozinha de acordo com o que eu quero traz uma sensação de liberdade impagável. Lembro que ano passado, quando estava em Machu Picchu, eu olhava para aquele lugar maravilhoso e não me sentia só; pensava que tinha que guardar muito bem na minha lembrança e nas centenas de fotos aquele momento, pois ele era único na minha vida e eu queria guardar cada detalhe para compartilhar com outras pessoas.

Por isso sempre me lembrarei de Lincoln não só como um ótimo filme ganhador do Oscar, mas também como a experiência determinante que fez com que eu percebesse que, por vezes, eu sou minha melhor companhia. 🙂

O dia em que passei mal no metrô de Londres

Era meu penúltimo dia na cidade cinzenta e chuvosa que todo mundo ama, mas ainda faltavam três coisas a fazer: ir a um pub, beber uma pint e ver a troca da guarda no palácio de Buckingham. Pois bem: decidi que faria as duas primeiras na sexta à noite e a última no sábado de manhã, já que meu voo era só à noite. Mas as coisas não saíram bem do jeito que eu, virginiana assumida, tinha planejado.

Sim, eu fui ao pub e bebi minha pint para fingir que era descolada e que não tinha paladar infantil. Até aí, tudo certo. O problema foi 1) eu tinha passado o dia inteiro andando pra lá e pra cá e não tinha me alimentado direito 2) depois do pub, me acabei em um McDonald’s.

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Essa carinha feliz de quem tinha acabado de chegar em Londres mal sabia o vexame que ia dar no final da viagem…

Pegando o metrô de volta à casa da minha hostfamily, veio aquela vontade incontrolável de colocar a pint e o Big Mac para fora – um eufemismo para vomitar. Cogitei sair do metrô em alguma estação para o estrago ser menor, mas… não teve jeito. Foi ali mesmo, sob o olhar horrorizado dos ingleses daquele vagão. Fiquei pensando que, se fosse no Brasil, alguém teria me oferecido ajuda, mas o máximo que aconteceu foi ver o povo do vagão ir para o mais longe possível de mim. Fiquei chateada, mas, paciência, não era esse evento isolado que ia estragar minha opinião sobre os ingleses, em geral.

Cheguei em casa com a roupa e bota sujas e ainda tendo que dar explicações para a hostmom que, pelo olhar de reprovação, não deve ter acreditado que eu tinha bebido uma única e inocente pint.

Obviamente, eu não consegui acordar a tempo no dia seguinte para ver a troca de guarda, o único must see que eu não consegui cumprir. Dormi até tarde, joguei as coisas nas 3 (!) malas e deixei uma bagunça considerável no quarto (é feio, eu sei, mas eu não tinha condições). Vim em todo o voo de volta morrendo de medo de passar mal de novo e recusando educadamente o café da manhã servido pela aeromoça que incluía ovos com salsicha.

Chegando ao Brasil, comi um pratão de arroz, feijão, bife e batata frita e tudo voltou ao normal.

Bom, eu não queria ter me despedido de Londres assim, mas esse incidente não foi nada perto de todas as coisas maravilhosas que conheci e aprendi, de modo que Londres sempre terá um lugar especial no meu coração (só não sei se posso dizer o mesmo em relação ao pessoal daquele fatídico vagão rs). Ah, e desde então nunca mais comi no McDonald’s 😉

O dia em que eu escolhi viajar

Para minha mãe, é um grande mistério de onde vem essa vontade infinita de viajar. Explico: meus pais não puderam viajar tanto quanto gostariam quando eu era criança, já que o dinheiro que entrava era basicamente para pagar contas. Então, quando criança, minhas aventuras se resumiam a: viajar para o sertão do Ceará para visitar meus avós em uma viagem de 3 dias de ônibus (avião era simplesmente impensável dentro das nossas condições financeiras); visitar parentes em uma cidade do interior de São Paulo chamada Aguaí; ir para o litoral sul de São Paulo em alguns verões.

A vontade de viajar  foi desperta na adolescência após uma série de fatores. Segundo um ex-aluno meu disse, no fundo, eu sempre tive uma alma viajante. Quem proporcionou as primeiras viagens foram os livros, meus grandes companheiros em todos os momentos da minha vida (sempre fui uma leitora voraz). Foi por meio dos livros que visitei a Grécia Antiga de Ulisses, a terra de Oz de Dorothy, a Hungria dos meninos da rua Paulo, a Inglaterra de Agatha Christie, o patanal dos Karas, a Itália de Romeu e Julieta e tantos outros lugares.

Paralelamente a isso,  houve um momento em que saí da minha bolha social e conheci pessoas que já tinham viajado para muitos lugares, desde as colegas do colégio que já tinham visitado a Disney inúmeras vezes até minha chefe que já tinha morado em 3 países diferentes e visitado uns tantos outros. Acho que foi nessa fase da vida que eu decidi que eu também podia e merecia viajar para onde quisesse. No fundo, eu sempre soube que as palavras de Saramago “é necessário sair da ilha para ver a ilha”  era a mais pura verdade e que conhecer pessoas e lugares diferentes só ia trazer benefícios para a minha vida.

Minha primeira viagem que não envolveu família foi para o Rio de Janeiro, quando eu participava de um projeto social que tinha parceria na cidade maravilhosa. Embora tenha sido uma viagem a trabalho, tive a chance de conhecer o Rio (com uma pessoa que conhecia muito bem a cidade, diga-se de passagem). Mal sabia eu que ali era apenas o começo de um vício que me domina até hoje…

Para impulsionar essa chama que começava a acender, passei a ler blogs sobre viagem, principalmente para colher informações sobre meu grande destino: Londres. Aí pronto: ler os relatos de tantos viajantes mundo afora potencializou meu espírito aventureiro e até hoje eles são as primeiras fontes de pesquisa quando começo a planejar mais uma viagem.

Para uma pessoa com recursos financeiros restritos, escolher viajar envolve, necessariamente, não escolher uma série de coisas. Explico: na Economia, existe um conceito muito básico chamado trade off, no qual se abre mão de algo para poder ter outra coisa e eu parto do princípio de que se tal conceito se aplica à Economia, então também serve para mim. Isso significa que eu escolhi viajar e que isso é prioridade na minha vida. Significa que eu, ao contrário de algumas pessoas da minha idade, não tenho um celular de última geração, não pago o financiamento de um imóvel, não tenho carro, não compro roupas e sapatos caros, não fiz nem penso em fazer uma mega festa de casamento, não vou ao cabeleireiro e/ou manicure semanalmente e que, inclusive, não faço viagens caras. Veja bem: isso não significa que ter esses bens citados acima seja errado; significa apenas que, para mim, eles não são importantes. Para mim, viajar é prioridade e algo que me faz muito feliz; por isso, não vejo que estou fazendo sacrifícios, e sim investindo tempo, energia e dinheiro em algo que me faz muito, muito bem.

Escolher viajar não foi uma decisão tomada em um único dia: foi um processo que envolveu conhecer pessoas com perspectivas diferentes, ter certas experiências e refletir sobre o que vale a pena nessa vida. Hoje eu sei que também despertei essa vontade de se jogar no mundo em outras pessoas e eu espero viver minha vida como aquelas duas senhorinhas chilenas que conheci em uma das minhas andanças: sempre se surpreendendo em como o mundo é belo e como ainda há tanto para se conhecer.

 

 

O dia em que eu decidi contar minhas histórias de viajante

Não, esse não é meu primeiro blog. Pelas minhas contas, esse é o terceiro. O primeiro tinha mais cara de diário virtual e eu o usava principalmente para dar minhas opiniões de adolescente diferentona. O segundo era uma tentativa fail de registrar minhas viagens, poois logo a preguiça me dominou. Aliás, viagens são uma paixão há bastante tempo e este é um blog cujo tema central é exatamente esse. Porém, decidi não fazer um blog com dicas de viagens porque, convenhamos, a internet está cheia de ótimos blogs que sempre foram meu fieis guias em minhas andanças por aí. A ideia desse blog é contar histórias/perrengues que aconteceram comigo nas minhas viagens, afinal, as pessoas veem as cachaças que eu bebo mas ninguém sabe dos tombos. 

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Legal essa foto, né? Mas ela não conta que eu tive um piriri danado nessa viagem…

Aquela foto incrível no deserto de Uyuni esconde um verdadeiro piriri. O sonho de conhecer Londres veio junto com um vexame no metrô. Aquele pôr do sol em Búzios não conta que meu namorado estava muito mal humorado horas antes por eu tê-lo enganado, reduzindo uma viagem de quase 10 horas a um “é logo ali”. Mas, acredite, apesar dos perrengues, tudo deu certo no final e cá estou.

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Casalzinho bonitinho em Búzios depois de muito estresse e briga em quase 10 horas de viagem

Então, esse blog será um conjunto de histórias de uma viajante não contadas naquelas fotos incríveis das redes sociais. Sim, as redes sociais mentem e escondem os perrengues por trás daquela foto pulando em frente a um monumento histórico. E está na hora de compartilhar algumas dessas histórias 😉

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Poucas horas depois dessa foto em Viena eu estava em um hostel horroroso e bem esquisito…